Resenha de Manuel da Costa Pinto - Revista CULT
 
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Equilíbrio e invenção
  
Manuel da Costa Pinto
  
    Para o público em geral, as antologias poéticas são boas oportunidades para se ter uma visão panorâmica da produção de um período; para os próprios poetas, pesquisadores acadêmicos e críticos literários, é a ocasião para identificar tendências, reivindicar posições estéticas, eleger um cânone e, de quebra, criar um ambiente de discussão sobre os critérios de inclusão ou exclusão deste ou daquele nome. Nesse sentido, as duas mais recentes antologias da poesia brasileira devem ter efeitos diametralmente opostos. 
     Correspondencia celeste foi lançada na Espanha, mas é bilíngüe e por isso serve perfeitamente ao leitor brasileiro. Organizada por Adolfo Montejo Navas, jornalista e escritor madrilenho radicado no Rio de Janeiro, é dividida em quatro partes (correspondentes às décadas de 60 a 90) e traz prefácio que mostra um raro conhecimento das diversas vertentes da poesia brasileira contemporânea. 
     Grosso modo, Montejo Navas procurou selecionar nomes representativos de três linhagens que considera predominantes no período: tropicalismo, poesia marginal e pós-concretismo. Em cada uma, escolheu alguns poetas em detrimento de outros. Entre os tropicalistas, por exemplo, entram Duda Machado e Waly Salomão, mas não Torquato Neto; entre os marginais da geração da “poesia mimeógrafo”, Ana Cristina César, Cacaso e Francisco Alvim, mas não Chacal; entre os pós-concretistas, Sebastião Uchoa Leite, Régis Bonvicino e Ricardo Aleixo, mas não Frederico Barbosa ou João Bandeira. 
      Ou seja, Correspondencia celeste procura identificar linhas de força, poetas cujas obras reverberam na poesia alheia, criando um circuito em expansão. Por isso, certamente, Montejo Navas exclui alguns nomes importantes que, no entanto, são vozes isoladas – caso de José Paulo Paes, Manoel de Barros e Hilda Hist (embora, por este mesmo critério, seja de estranhar a presença da poesia metafísico-religiosa de Adélia Prado). 
      A antologia espanhola também exclui alguns grupos de poetas que parecem dialogar em circuitos mais fechados, seja pelo dialeto estilístico (o vistuosismo classicizante de Bruno Tolentino e Alexei Bueno), seja pela insularidade temática (a “poesia do corpo” de Glauco Mattoso e Ítalo Moriconi). Em compensação, descobre nas obras de Júlio Castañon Guimarães, Carlito Azevedo, Heitor Ferraz, Sérgio Alcides e Marcos Siscar o recurso comum de vazar a experiência através de uma leitura vigorosa da tradição modernista. Nesse sentido, é incompreensível a ausência de Fernando Paixão numa antologia em que, de resto, predomina o equilíbrio. 
      Na virada do século – Poesia de invenção no Brasil tem um propósito radicalmente diferente. O fato de ter sido elaborada por dois poetas que se inserem na continuidade do concretismo indica seu caráter reivindicatório. E o subtítulo remete ao projeto de Haroldo de Campos (esboçado em A arte no horizonte do provável) de fazer uma antologia que identificasse na produção do passado os elementos da  “pervivência” poética – sempre do ponto de vista de quem lança o olhar sobre a história literária e constitui seus precursores. 
      Em Na virada do século, não se trata de olhar para trás, mas de identificar na literatura contemporânea aqueles autores que ampliam o repertório de formas da poesia brasileira. Nesse caso, a própria antologia assume um caráter de intervenção no sistema literário e pretende contribuir para a “pervivência” dos autores escolhidos: é uma aposta que segue a palavra de ordem concretista segundo a qual “poesia é risco”. 
      Diante disso, é natural que Frederico Barbosa e Claudio Daniel tenham excluído muitos poetas presentes em Correspondencia celeste – seja pelo recorte temporal mais restrito (a antologia inclui apenas poetas que surgiram ou atingiram maturidade literária nos 90), seja pela escolha de nomes que correspondem ao conceito de “invenção”. Em alguns casos, Na virada do século detecta tendências que se dão a partir de autores presentes em Correspondencia celeste: pensemos em poetas como Tarso de Melo, Kleber Mantovani e Fabiano Calixto, cuja identificação com a Language Poetry norte-americana se dá sob o impacto da divulgação dessa tendência no Brasil por Régis Bonvicino (ausente de Na virada do século por pertencer a um momento poético anterior). Em outros, a descontinuidade entre as duas antologias é mais evidente, como na inclusão de poetas em que se cruzam as linguagens do rock, do jazz, da poesia beat e de um universo pop televisivo, como Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção ou mesmo Joca Reiners Terron. 
      Finalmente, deve-se destacar aqui a criação – corajosa, mas certamente polêmica, pois rouba espaço a candidatos mais consolidados – de uma seção dedicada a seis autores inédito em livro, cujos poemas são conhecidos apenas em círculos restritos ou por leitores de revistas literárias. Três deles, aliás, já tiveram poemas publicados na Cult: Amador Ribeiro Neto, Jorge Padilha e Micheliny Verunschk. 



Publicado na seção Estante Cult, p. 16, revista CULT, n.60, ano VI, agosto de 2002.

 
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