Entrevista
 
 
 
Balacobaco  ano V - número 17 -  Rio de Janeiro, 05 de maio de 2002.
 
A Poesia de Invenção no Brasil 
Claudio Daniel e Frederico Barbosa 
em entrevista sobre a antologia que estão lançando pela editora Landy.
 
Entrevista para Rodrigo de Souza Leão
  

1. O que foi necessário para que um poeta constasse na antologia Na virada do Século - Poesia de Invenção no Brasil? Como eu estou na antologia que organizaram e vocês também, como fugir ou como já responder aqueles que acusarão a antologia de privilegiar um tipo de escrita ou ser uma panelinha?  
  

Claudio Daniel - A antologia Na Virada do Século, organizada por Frederico Barbosa e por mim, reúne 46 poetas brasileiros contemporâneos, das mais diversas linhas e matizes, mas afinados com a idéia de invenção, pesquisa estética e rigor. Estão presentes autores como Josely Vianna Baptista, Júlio Castañon Guimarães, Arnaldo Antunes, Glauco Mattoso, enfim, poetas muito diferentes entre si. Agora, multiplicidade não quer dizer "vale tudo". Recusamos muita coisa. Numa época em que certo establishment universitário quer exorcizar o fantasma da vanguarda para afirmar uma poesia fácil, cotidiana e conformista, nós insistimos em defender a escritura poética crítica e criativa, que busca novas formas estéticas. A inclusão dos próprios organizadores seguiu a orientação do projeto do livro, pois acreditamos na seriedade de nosso trabalho poético. Não seria falta de objetividade e análise crítica excluir de uma coletânea desse nível um autor como Frederico Barbosa, autor de livros notáveis, como Rarefato?  Por outro lado, se formos ver outras antologias, publicadas no Brasil e no exterior, não é fato raro a inclusão do próprio organizador numa mostra. O que deve ser considerado, para mim, é a qualidade e a coerência desse tipo de inclusão, se ela é baseada em méritos reais ou em   
vaidade.  

Frederico Barbosa   Essa antologia  não tem qualquer pretensão de "neutralidade". A pretensa "neutralidade" é o refúgio mais comum dos covardes e dos oportunistas. Dizendo-se "neutros", destilam os piores venenos e preconceitos possíveis. Veja-se a "neutralidade" (chovam aspas) com que uma boa parcela da universidade trata a poesia contemporânea. A diversidade de fato marca a poesia presente na antologia, mas as duas vertentes poéticas mais comuns no Brasil contemporâneo foram sistemática e intencionalmente ignoradas: a poesia bem comportada, bonitinha mas ordinária, dos neoparnasianos arcaizantes, que se dedicam a criar requintes postiços e defender o retrocesso e a gratuidade retratista, ingênua e simplista dos neodrummondianos redutores.  

Você está na antologia sim, Rodrigo, mas nem eu nem o Claudio conhecemos você pessoalmente, não é mesmo? Conhecemos o seu trabalho. Primeiro as entrevistas, depois lemos seus livros na Internet. Gostamos e incluímos. Se hoje considero, sim, você meu amigo, ainda que virtual, essa foi uma amizade que se desenvolveu a partir da admiração mútua do trabalho um do outro... e não o inverso. Aconteceu isso com vários outros autores. Há amigos incluídos sim, mas há vários poetas amigos nossos que não comparecem.  

Nem mesmo eu e o Claudio Daniel, quando começamos a fazer a antologia éramos "amigos". Conhecíamos o trabalho um do outro há décadas (eu fui o primeiro crítico a elogiar um poema dele, nos idos de 1989), mas tínhamos (e temos) visões diferentes da poesia e nunca tínhamos trocado palavra até semanas antes de iniciarmos o projeto. O que não nos impedia de admirar a arte um do outro ou nos impediu, apesar de diversas discussões intensas, de trabalharmos juntos para fazer essa antologia. Na discussão, na troca e até embate de idéias, crescemos, aprendemos e conseguimos fazer uma antologia muito representativa do que de mais inventivo se produz na poesia brasileira hoje. É claro que, hoje, já o considero um excelente amigo. Além de admirar sua poesia, que jamais poderia ficar fora de qualquer antologia poética, descobri que o Claudio é uma pessoa honestíssima, séria, de excelente caráter. Isso é mais do que raro, é extraordinário.  
  

2. Qual a importância das antologias para a literatura brasileira?  

Frederico  Antologias ajudam a divulgar o trabalho. Nisso, são importantíssimas para a poesia, já que o descaso nesse ramo de atividade é a norma. Facilitam o acesso do leitor interessado, que pode, assim, procurar os livros específicos de cada autor. O principal problema é como as antologias são encaradas no Brasil. O antologista muitas vezes veste a toga de juiz do bem e do mal, advogando-se o poder de escolher "Os melhores"...poemas, poetas, contos etc. Contam, também, com a avidez dos possíveis antologizados, que muitas vezes vêem a sua inclusão em uma antologia como um aval paternalista à sua obra. A escolha dos poetas incluídos em Na Virada do Século de maneira alguma, como o coloquei na Introdução à obra, "representa uma afirmação categórica de que esses são o(a)s melhores poetas do Brasil hoje. Essa antologia é um amplo panorama da poesia de invenção, dentro dos limites do que conhecemos e pesquisamos, no Brasil da virada do século XX para o XXI. Erramos? Certamente. Só o tempo, o maior dos críticos literários, poderá trazer à tona os erros e acertos das nossas escolhas."  
  

Claudio  Acredito que as antologias, assim como as revistas e sites de literatura, podem oferecer ao leitor disponível um pequeno panorama da produção poética de um período. Nenhuma antologia é completa, nenhuma diz a última palavra e, certamente, todas cometem equívocos. Agora mesmo saiu em Portugal uma coletânea de poesia brasileira do século XX que ignora quase totalmente o que foi produzido no País nas décadas de 80 e 90,além de incluir notas críticas no mínimo suspeitas. Um trabalho mais sério está sendo desenvolvido hoje, nos EUA, por Flávia Rocha, e deverá ser publicado ainda neste ano pela editora Rattapallax. Vale a pena citar, também, a coletânea organizada e traduzida por Reynaldo Jiménez,na Argentina, e publicada em edição especial da revista Tsé Tsé.  
  

3. Ambos têm experiência como professor. O que o público jovem quer do poeta atual?  
  

Frederico  Eu sou operário do ensino e trabalho com milhares de adolescentes, mas jamais teria  pretensão de saber o que o jovens querem, Rodrigo. Mas estou cada dia mais convicto de que só uma poesia de impacto, como a sua, a de Joca Reiners Terron, ou a de Micheliny Verunschk, pode romper a barreira da indiferença. Repito o que escrevi há 12 anos, em ensaio intitulado "A Tradição do Rigor e depois..." (está na Internet, no endereço http://sites.uol.com.br/fredbar/rigor.htm):  

"A poesia em que não se percebem articulações formais, condensamentos lingüísticos, descobertas originais, não tem nenhum vantagem sobre a prosa mais banal, e não pode, assim, conquistar um público leitor que ainda tem que ser alfabetizado para o poético, para o jogo lúdico das formas. Formar o leitor crítico e lúdico; eis uma missão que só pode ser levada a cabo com uma poesia absolutamente rigorosa, caso contrário sempre há de perder para a prosa mais fácil e mais imediata."  
  

Claudio  Sou jornalista de formação. Só dei aulas uma vez na vida, num curso sobre haicai patrocinado pela Secretaria Municipal de Cultura,numa biblioteca de Santo Amaro. O que pude notar é que os alunos, todos jovens e da periferia de São Paulo, tinham muito interesse em assimilar informação nova. Conversei com eles sobre tudo, de Bashô a Leminski, de teatro nô a poesia visual, e para minha alegria eles receberam esse repertório não apenas com curiosidade, mas até com fascinação. Era um mundo novo para eles. Essa experiência, para mim, demonstrou, mais uma vez, que o caminho não é o de nivelar por baixo, socializar a miséria cultural, na linha "nacional-populista" do Ferreira Gullar, mas sim levar à sociedade o "biscoito fino" de que falava Oswald de Andrade.  
  

4. Por que há uma insistência de que a poesia brasileira está dividida entre os que escrevem com mais e menos palavras?  
  

Claudio  Acho essa divisão artificial e inconsistente. Um poeta como o cubano José Kozer, por exemplo, não é menos rigoroso e inventivo do que Cummings ou Creeley só porque usa mais palavras. O verso longo nem sempre é algo discursivo, confessional, métrico e sintático. Pode ser algo tão ou mais inusitado do que um poema de três palavras de Ungaretti. O que conta é o savoir faire.  
  

Frederico  Impossível não concordar com o Claudio. Mas acho que a discussão (tola, é claro)  advém do fato de que há muita verborragia e diarréia mental por aí passando por poesia. Escrever de forma mais condensada não garante a qualidade de poeta algum, mas certamente já é uma boa forma de poupar a paciência do leitor...  

5. Como encararam a carta aberta aos poetas escrita por Alexei Bueno?  

Frederico - Diarréia.  

Claudio - Uma bobagem.  
  

6. Quais foram os grandes inventores da poesia brasileira do passado?  

Claudio  Acredito que seja necessária uma ampla revisão da poesia simbolista brasileira (esmagada pela tradição parnasiana), pois lá se encontram autores instigantes, pouco lidos e estudados, como Ernâni Rosas, Pedro Kilkerry e Maranhão Sobrinho, além é claro de Cruz e Sousa, para mim, o maior poeta brasileiro de todos os tempos. Se formos falar do século XX, porém, três nomes para mim são fundamentais: Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto e Augusto de Campos, o nosso miglior fabbro.  
  

Frederico  Inventores, no sentido poundiano, de "homens que descobriram um novo processo", só mesmo Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos.   
Podem falar o que quiserem, mas só eles, em toda a história da poesia brasileira, nos deram "o primeiro exemplo conhecido de um processo": a poesia concreta. Além deles, há, na prosa, mas mais poeta do que quase todos os versejadores, João Guimarães Rosa. Tivemos vários "mestres", ainda no sentido poundiano. Os de minha predileção são: Gregório de Matos, Sousândrade, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.  

Aliás, Drummond é um caso à parte. Na sua imensa obra há "drummonds" para todos os gostos. Seria interessante você fazer, Rodrigo, no centenário de Drummond, uma enquete: "de que Drummond você mais gosta e por quê"?  Essas simples (?) respostas definem muito da "postura poética" de um escritor de hoje. Antes que me esqueça, o "meu Drummond" é o de Alguma Poesia 
  

7. Num mundo globalizado e onde há coisas como o Big Brother e A Casa dos Artistas, qual o lugar da poesia?  
  

Claudio  A poesia sempre foi um corpo estranho no mundo e na linguagem. Uma espécie de vírus de computador. Fazer poesia, além do artesanato com as palavras, é uma forma permanente de crítica de formas viciadas de viver, sentir e pensar. Uma conspiração clandestina, operação de sabotagem, guerrilha cultural, mas também a afirmação de outras possibilidades de relação entre o homem e o mundo. Exatamente por isso ela é tão necessária, hoje, como resistência à mais violenta onda de massificação e vulgaridade já vista na história dos meios de comunicação. Não sou contra a televisão   
como mídia, o que seria idiotice, ou contra a música popular, que já nos deu nomes importantes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Arrigo Barnabé.   Porém, o que assistimos hoje é a um processo de extermínio da inteligência nacional, uma espécie de Auschwitz via satélite. Aliás, o próprio nome "Big Brother" é significativo, pois foi tirado do romance 1984, de George Orwell, que trata de uma sociedade totalitária e massificada, regida pela ditadura eletrônica do Grande Irmão... estamos presenciando uma perigosa operação de lavagem cerebral coletiva, que impõe à sociedade o que há de mais vulgar, caricato e embrutecedor, pois é sempre mais fácil governar um povo imbecilizado. Contra os padres cantores, as dançarinas de microcérebro, as gralhas do sertão, os mamutes e piranhas que se coçam frente à TV, creio que nós, poetas, intelectuais e todas as pessoas de bom senso devemos nos levantar. No mínimo, para fazer algo bastante simples e prático: desligar a televisão.  
  

Frederico  Poesia é subversão. Será sempre coisa de loucos que nadam contra a corrente. Camões já reclamava:  
 

          Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho  
          Destemperada e a voz enrouquecida,  
          E não do canto, mas de ver que venho  
          Cantar a gente surda e endurecida.  
          O favor com que mais se acende o engenho  
          Não no dá a pátria, não, que está metida  
          No gosto da cobiça e na rudeza  
          D'uma austera, apagada e vil tristeza.
  
  
Mas é preciso continuar a luta contra a "ditadura da popularidade" e continuar cantando contra, incomodar os acomodados, gritar contra o nosso inferno diário.  

Aliás, antes que chovam as porradas sobre a nossa antologia, vale lembrar o genial livro do poeta português Alberto Pimenta: Discurso sobre o Filho da Puta. Nele, Pimenta afirma que há, basicamente, dois tipos complementares de "filhos da puta": os que nada fazem e os que destroem aquilo que os outros fazem, para que não se perceba a inércia dos que nada fazem.  

Nós fizemos Na Virada do Século: para mostrar a riqueza que há, muitas vezes escondida pelo mar de mediocridade. Certamente esse mar há de se revoltar.  

OS AUTORES:  

Cláudio Daniel:  

  Claudio Daniel nasceu em 1962, em São Paulo. Poeta e jornalista, editou a revista de cultura Gaia, nos anos 80. Publicou três livros de poesia, Sutra (edição do autor, 1992), Yumê (Ciência do Acidente, 1999) e A Sombra do Leopardo (Azougue, 2001), que recebeu o prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, promovido pela revista CULT. Como tradutor, publicou duas antologias do cubano José Kozer, Geometria da Água & Outros Poemas (Fundação Memorial da América Latina, 2000) e Rupestres (Tigre do Espelho, 2001). Claudio Daniel participou da antologia bilíngüe de poesia brasileira contemporânea organizada por Reynaldo Jiménez e publicada na revista Tsé-tsé (Argentina, 2000), e colaborou em diversas revistas estrangeiras, entre elas Tercer Milenio (EUA), Turia (Espanha), Doc(k)s a Lire (França) e Crítica (México). Na Internet, seus poemas estão disponíveis no site http://www.gratisweb.com/claudiodaniel. O autor reside atualmente em São Paulo com sua mulher, Regina, e o filho Iúri.  

Frederico Barbosa:  

    Contundência e construção são os traços mais marcantes da poesia de Frederico Barbosa. Considerado por Haroldo de Campos "dos mais expressivos de sua geração, pelo sentido construtivo e gume crítico de seus poemas" e por Arnaldo Antunes um "poeta admirável pela maneira como associa contundência e construção, que denota bastante maturidade no trato com a linguagem verbal" - Frederico Barbosa é, nas palavras de Manuel da Costa Pinto, possivelmente o poeta que mais explicitamente assume sua dívida para com o concretismo. (...) Ao lado de Augusto de Campos, é hoje o poeta que melhor navega pelas águas do experimentalismo." Já Heloísa Buarque de Hollanda acrescenta que "tem um tipo de negociação com o concretismo muito independente, muito interessante. Ele usa aquilo tudo, mas interpela de um jeito diferente..." Essa independência, sem trair a experimentação e o rigor da experiência, levaram o crítico Antonio Candido a apresentar Contracorrente (Iluminuras, 2000) afirmando que "este terceiro livro mostra que o lugar de Frederico Barbosa é entre os verdadeiros poetas da sua geração", pois "o poeta parece estar além da pura experiência e plenamente integrado na sua personalidade poética."  
    O primeiro livro de Frederico Barbosa, Rarefato (Editora Iluminuras, 1990), foi escolhido pelos jornais O Estado de S. Paulo e O Estado de Minas (Belo Horizonte) como um dos melhores livros do ano. Seu segundo livro, Nada Feito Nada (Editora Perspectiva,1993), foi publicado na Coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos, e ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Nos últimos anos, seus poemas têm sido traduzidos e publicados em coletâneas de diversos países, como os Estados Unidos, Austrália, México, Espanha e Colômbia.   
     Consultor técnico das coleções Ler é Aprender (O Estado de S. Paulo), Livros (O Globo, Rio de Janeiro) e Biblioteca ZH (Zero Hora, Porto Alegre), organizou para essas coleções, publicadas pela Editora Klick (São Paulo), vários volumes, entre eles, a coletânea Clássicos da Poesia Brasileira, os Poemas Escolhidos de Fernando Pessoa, Os Sonetos de Camões e os Contos Escolhidos de Artur Azevedo, além de assinar diversos dos estudos que acompanham as obras. Em 2000 publicou Cinco Séculos de Poesia - Antologia da Poesia Clássica Brasileira, pela Landy Editora e Contracorrente, pela Iluminuras.  
      Em 2001 preparou uma edição comentada dos episódios Inês de Castro e O Velho do Restelo, dos Lusíadas, de Camões (Landy Editora) e lançou o seu quarto livro de poemas, Louco no Oco sem Beiras - Anatomia da Depressão, pela Ateliê Editorial.
                Suas obras podem ser encontradas no site A Poesia de Frederico Barbosa.
 

Rodrigo de Souza Leão 
 
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