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BH, 04/06/2002 Driblar estes problemas é tarefa que requer fôlego criativo e estabelecimento de critérios seletivos muito bem definidos. “Na Virada do Século", antologia de “poesia de invenção no Brasil", como ressalta seu subtítulo, agrupa 46 autores, selecionados pelos poetas Cláudio Daniel e Frederico Barbosa. O trabalho está sendo lançado pela editora Landy, de São Paulo (SP), e é raro exemplo de coerência temática e organizacional. O livro integra um projeto mais amplo do poeta e ensaísta Frederico Barbosa, dividido em três etapas. A primeira, já publicada, abrangeu a poesia brasileira anterior ao Modernismo, estabelecendo como marcos inicial e final os versos de José de Anchieta e Augusto dos Anjos. A segunda ainda está em fase de elaboração e fincará seus pés em nomes como Manuel Bandeira, Oswald e Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Murilo Mendes e João Cabral de Melo Neto sem esquecer a poesia concreta de Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de Campos e os trabalhos essencialmente plurais de Paulo Leminski, Torquato Neto, Sebastião Uchôa Leite e Affonso Ávila. Barbosa, revelação poética no final da década de 80, elogiado por nomes como Haroldo de Campos e Antonio Cândido, publicou livros como “Rarefato", “Nada Feito Nada" e o recente “Louco no Oco Sem Beiras", lançado ano passado pela editora paulista Ateliê. Cláudio Daniel é tradutor do cubano José Kozer e autor de “Yumé" e “A Sombra do Leopardo". Os dois têm vivência e leitura do extrato poético. Da união destas duas qualidades, nasceu uma antologia crucial, obrigatória para quem quiser conhecer a diversidade e qualidade da produção poética brasileira contemporânea. Dos 46 poetas, oito são mineiros e vêm destacando-se, mesmo possuindo diferenças radicais nas suas maneiras de escrever, pensar e agir, o que dá um certo ar de conciliação de contrários ao livro. O importante é que, distingüidas as suas diferenças conceituais e literárias, são poetas marcantes, com seu work in progress, defendendo suas idéias e apostando no atrito, geografia necessária para que a criação poética cresça e, simplesmente, não desapareça. Os mineiros Anelito de Oliveira, Carlos Ávila, Cláudio Nunes de Morais, Donizete Galvão, Fabrício Marques, Júlio Castañon Guimarães, Ricardo Aleixo e Ronald Polito estão inseridos em um contexto mais amplo. A antologia de Cláudio Daniel e Frederico Barbosa não é uma mera compilação de textos poéticos ou uma colcha de retalhos mal costurada. Os poetas, munidos de seu arsenal de diferenças, dialogam intensamente entre si, mesmo que esta conversa seja tensa, provocativa e, portanto, infinitamente rica. No prefácio da antologia, intitulado “Uma Escritura na Zona de Sombra", dedicado à memória de Paulo Leminski, Cláudio Daniel já estabelece a geografia dos textos que ali brotarão. “A poesia é um corpo de delito. Propor novas relações entre as palavras, recusando a rotina no uso do idioma, é um ato de dissidência, para alguns, de demência. Escrever na zona de sombra, no espaço à margem, desvio ou desvão, é a demanda dos poetas brasileiros na entrada do terceiro milênio, em busca de uma escritura renovada", frisa Daniel. A “zona de sombra" proposta por Cláudio Daniel já aproxima o antologista de uma das poetas selecionadas: a carioca Cláudia Roquette-Pinto, que possui um livro com este nome, publicado pela editora Sette Letras, do Rio de Janeiro (RJ). Cláudia, autora do recente “Corola", prêmio Jabuti de poesia em 2002, possui a característica que norteia todos os autores escolhidos: a preocupação com a linguagem e a certeza de que o rigor é a única arma para avacalhar a mesmice e detonar o coro dos contentes. Analogias e afinidades, diferenças e fricções sedimentam o pilar desta antologia. A mínima memória e o gosto pela voz intersticial, quase emblema de silêncio, aproxima Carlos Ávila e Ronald Polito. A mesma vocação experimental ecoa em Cláudio Nunes de Morais, Tarso de Melo e Fabiano Calixto. A reverberação do pós-moderno, através dos jogos intertextuais e dos caleidoscópios multireferenciais, pode ser uma das portas de entrada às propostas poéticas de Fabrício Marques, Carlito Azevedo, a própria Cláudia Roquette Pinto e outros mais. A preocupação com a linguagem ganha outros componentes importantes nos poetas enfocados, como a procura por diferenciais de repertório. Seja a alma beat reciclada por Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção e Ricardo Corona, as investigações do vasto corpo extraliterário de Ricardo Aleixo e Antônio Risério (a mescla entre África e Brasil em totens de ousada experimentação, os orikis e suas derivações, mix entre passado e presente, ancestralidade e historicidade) ou de Anelito de Oliveira (que almeja a intersecção de várias configurações literárias em uma política da escrita poética, ecoando e expandindo as teorias de Jacques Ranciére), ou ainda no resgate da visualidade de Arnaldo Antunes e Josely Vianna Baptista. |
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