Resenha de Nelson de Oliveira - Jornal do Brasil
    
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Mapa da nova geração poética 
  
Antologia reúne o melhor de 46 nomes surgidos no Brasil nos anos 80 e 90 
  
Nelson de Oliveira
  
NA VIRADA DO SÉCULO: POESIA DE INVENÇÃO NO BRASIL 
Org. Cláudio Daniel e Frederico Barbosa 
Landy Editora, 352 páginas 
R$ 40 
   
     O Brasil recente foi coberto pela onda das antologias. O século 20 foi fechado para balanço e procurou-se descobrir quais os melhores contos, poemas, romances e ensaios nele produzidos. O resultado dessa pesquisa deu origem a vários livros, muitos dos quais mal saíram e já foram parar nas listas de mais vendidos. Mas o desafio encerrado na palavra antologia, que significava em sua origem seleção de flores - só os melhores espécimes deviam ser agregados ao florilégio -, não é dos mais fáceis. Organizar uma antologia do que quer que seja requer repertório, discernimento e talento crítico, tudo isso em grandes doses. Senão a antologia, que é a reunião dos melhores exemplares de determinado gênero, não passará de coletânea, que é a reunião de textos qualitativamente diferentes, muitos deles não tão exemplares assim. É nessa onda do mercado editorial que chega às livrarias Na virada do século: poesia de invenção no Brasil, organizada pelos poetas Cláudio Daniel e Frederico Barbosa. O objetivo foi reunir os novos nomes da poesia brasileira, justamente os dos poetas que se firmaram no final do século 20. São 46 poetas e 234 poemas, números bastante expressivos. 
     Cláudio e Frederico, sabedores das armadilhas que a organização de uma antologia espalha pelo caminho, decidiram contornar todas elas. Para começo de conversa, seguindo ao que me parece as categorias de Ezra Pound, que dividiu os escritores em inventores, mestres e diluidores, optaram por ficar só com os primeiros. Ou seja, ficaram apenas com os jovens poetas que, como explicita Cláudio no prefácio, propõem ''novas relações entre as palavras, recusando a rotina no uso do idioma'', tendo em mente a crise do verso exposta por Mallarmé, mas sem abolir seu uso, diferente do que queriam os concretistas. Os pontos de referência são os nossos modernistas e os que vieram em seguida, principalmente João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes, e, em menor grau, os concretistas e os tropicalistas. 
     Dos 46 poetas reunidos, a grande maioria fez por merecer a convocação. Quem há de negar o valor de Glauco Mattoso, Cláudia Roquette-Pinto e Carlito Azevedo? Mas apesar de a proposta encerrada no termo antologia não permitir ausências, pois a seleção dos melhores tem que trazer todos - e apenas - os melhores, há ausências aqui. Falta inexplicável, ao menos do ponto de vista estético, é a de Moacir Amâncio, inventor por excelência. Aliás, é o conceito de poeta inventor que ajuda a explicar a não inclusão de poetas talentosos, como Fabrício Carpinejar e Fábio Weintraub, para ficar só em dois. Não estão na antologia porque não são inventores. O problema é que esses, e poderia citar outros que à sua maneira têm proposto novas relações entre as palavras e recusado sistematicamente o rotineiro uso do idioma, apresentam trabalhos mais consistentes do que, por exemplo, os poetas ainda inéditos em livro, que estão na antologia na seção especial destinada a eles. Isso significa que o conceito de invenção, ao menos em arte e literatura, precisa ser revisto o quanto antes. O mundo mudou muito desde que Pound formulou suas categorias. 
     Até aqui falou o espírito de porco: o resenhista pronto a apontar as falhas e a menosprezar as qualidades, apenas para deixar bem à vista de todos o bisturi impiedoso do comentarista severo. Essa postura não é das mais justas. Às vezes o melhor é adequar o discurso à realidade: vivemos neste país subnutrido, subdesenvolvido e, quando o assunto é literatura, bastante subestimado, tanto aqui quanto fora. Na virada do século ignora todos esses obstáculos e se apresenta como o importante livro que é. O projeto gráfico é elegante, de bom gosto, e seu sumário é o importante painel até então inexistente da atuação dos novos entre nós. A seleção concentra-se em duas gerações de poetas, a dos 80 e a dos 90, mas também traz três poetas dos anos 70: Antonio Risério, Júlio Castañon Guimarães e Glauco Mattoso, este com seu delicioso ''Manifesto coprofágico'', um dos melhores poemas do livro. Essa liberdade poética com os veteranos é explicada no post-scriptum do prefácio. 
     No primeiro grupo, o dos anos 80, estão poetas tão heterogêneos quanto Arnaldo Antunes e Donizete Galvão, entre outros. No segundo grupo, a diversidade continua com os poemas de Ademir Assunção e Josely Vianna Baptista, entre outros nomes de peso. Apesar de terem estreado em livro no final da década de 90, penso que poetas como Fabrício Marques e Joca Reiners Terron constituem a Geração Zero Zero. São jovens autores que têm tudo para se firmar neste início de século. Em comum, essas vozes têm o apreço pelas tendências mais recentes dentro da mixórdia contemporânea, como a language poetry, o neobarraco, a poesia oriental e a que é feita nas ruas de Nova York. 
     Merecem destaque também os bons poemas dos próprios organizadores, presentes no livro. Cláudio e Frederico pertencem à Geração 90, são poetas empreendedores, que, mais do que reclamar da atual conjuntura, vão à luta para realizar seus projetos. É claro que o resenhista do tipo espírito de porco tem mais essa oportunidade para recriminar ambos. Afinal, incluíram-se na própria antologia, e isso é outro problema. A seleção dos melhores a serem incorporados numa antologia requer imparcialidade e distanciamento crítico. O organizador é como o juiz que de maneira alguma pode legislar em causa própria. Por mais imparcial que seja, escolher a si mesmo para fazer parte do grupo compromete todo o projeto. Mas Na virada do século tem a seu favor o fato de ser uma antologia pacífica, sua intenção primeira não é a polêmica. O próprio Frederico reconhece: ''Nossa escolha não representa a afirmação categórica de que esses são os melhores poetas do Brasil hoje. (...) Erramos? Certamente. Só o tempo, o maior dos críticos literários, poderá trazer à tona nossos erros e acertos.'' A proposta não é arrumar briga com os excluídos nem com as panelas literárias da qual não fazem parte, é divulgar o talento e o esforço da nova safra de bons poetas ainda desconhecidos do grande público. 
  
Jornal do Brasil
[07/SET/2002] 
   

Nelson de Oliveira é 
escritor e organizador da antologia "Geração 90: Manuscritos do Computador"
 
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